quinta-feira, 13 de outubro de 2011
Se essa rua
terça-feira, 11 de outubro de 2011
Lábios
E sempre que eu te via esperar outras bocas, me arrependia de um dia ter esperado a sua, meus lábios perdiam a cor, ao meio de tanto preto e branco. Me arrependia de ter molhado os lábios, não sei se de medo ou esperança, lábios que se logo secavam enquanto imaginava miragens; seus beijos com a outra. Meus lábios se faziam desertos para quem um dia quis sentir tua língua, se fazia tabula rasa, para quem um dia quis sentir tua poesia.Te via esperar por outras bocas, e a minha ressecava da falta de palavras, e de tão árida formavam algumas rachaduras, em que saliva alguma conseguiria percorrer. A minha boca tentava digerir a cena da sua boca com aquela outra boca, e não obstante, você sorria para mim, e por não me dar nada eu olhava seus dentes, que só serviam para mastigar as lembranças de que um dia tua boca esperou a minha.
segunda-feira, 3 de outubro de 2011
Olhos Distraídos
Você diz que meus olhos são distraídos, mas o que eles olhavam quando apoiados em encantamento? Quando ancorados em tuas pernas? fincados em teus seios, como uma conquista promissora. Minhas retinas ainda traduziam a beleza que se despia em um piscar, minhas retinas ainda dublam o corpo que atuava em cima do meu. Minhas Pupilas reconheciam a luz do teu corpo em si, da praticidade da tua boca, do conteúdo de suas mãos, essa luz que entrava em seus órgãos, do orgasmo que se transformava em tempo e espaço. E era só o reflexo que detinha a cor que passava em nossos corpos. Os meus olhos que já abandonavam suas casas e a olho nu, percebiam a despedida dos teus pés que caminhavam em detrimento a minha saliva, e a despeito do meu colo. A água caia, enquanto meus olhos se fechavam, você se banhava, enquanto meus olhos compreendiam e organizavam todas as profusões, da água, do cheiro, do apelo. E depois aquele teu corpo que saia, envolto há uma necessidade fisiológica, era o mesmo corpo, mas sem devaneios, era o mesmo corpo com aqueles meus mesmos olhos fincados em teu coração. Aos poucos você se vestia, e a cada peça, meus olhos já quase reconhecendo os seus, se distraiam em descanso, mas nunca, nunca te perdiam de vista, se eles em algum momento se mostraram indiferentes a sua presença, foi por pura falta de espaço. Você ao pé da cama, se maquiando, incitava meus olhos a vestirem tranqüilidade.
domingo, 2 de outubro de 2011
Paladar de Palavras
Marcos não sabia qual era a intenção gastronômica de Márcia, não sabia se culminaria em um bolo, em uma torta ou alguma gororoba ainda sem nome, tamanha era a ignorância culinária dele, e tamanha era desatenção, então marcos decide prestar mais atenção nas coisas retiradas do armário do que nas palavras ditas.
- Marcos você anda muito chorão. Disse de forma ácida, enquanto separava algumas laranjas
- Eu também ando chorando muito desde que me deixou. Concluiu o pensamento enquanto cortava alguns pedaços de jiló
Ele já não entendia, os alimentos pareciam tão desconexos, tão dispares entre si
- A verdade é que quero chorar agora, que raiva de você. Márcia despejava o sal em uma panela, com muita parcimônia
Marcos ainda sem entender aquele amalgamar de alimentos, não fazia muito sentido.
- Eu gostava tanto do nosso sexo, Marcos. Márcia mexe uma panela cheia de pimentas.
Foi quando Marcos compreendeu tudo, sim, alguma coisa ali tinha sentido
- Toma amor, coloca um pouco de açúcar
- Ah, era isso que estava faltando, açúcar, obrigado meu amor. Disse Márcia com o jeito mais doce do mundo.
Eles então se beijaram, e caminharam até o quarto, não sem antes Marcos decantar um punhado de pimentas na panela.
No quarto os paladares se entenderam, e deixaram a tal gororoba quase
sexta-feira, 30 de setembro de 2011
O melhor jeito de dizer
- Que lindo isso amor, que poético.
- Po, poético nada, eu só to tentando dizer que to gravida.
quarta-feira, 28 de setembro de 2011
Fragmentos de Agenor
Ele se posicionou ao lado da geladeira, enquanto ela procurava alguma coisa para preencher o vazio da mente e da barriga. E a cada vez que ela abria a geladeira, enquadrava um plano perfeito dos olhos dele, era como se a geladeira equilibrasse a altura dos dois, embora ele nem tenha percebido isso.Por muitas vezes ela abria a porta , só para melhor ver seus olhos, e quando fechava, havia algo de estranho com o restante do corpo dee, foi então que ela percebeu que havia se apaixonado somente pelos olhos de Agenor, tá bem, não só pelos olhos, mas do nariz para cima, mais precisamente metade do nariz, que era onde a porta da geladeira cortava. Nesse minuto Elis ficou imaginando como seria se Agenor fosse só aquilo, só uma cabeça flutuante dizendo que a amava, será que Elis conseguiria amar uma cabeça flutuante? E de tanto imaginar fragmentos de Agenor, Elis esquecera completamente como era o resto do rosto e do corpo de Agenor, era como uma peça de quebra cabeça esquecida e perdida embaixo de um sofá, ou engolida por um gato qualquer. Elis se manteve paralisada, com a geladeira aberta, e pensativa, como será que era a boca de Agenor, será que eram lábios carnudos, será que eram vermelhos? Havia algum cavanhaque? Elis perdia totalmente a coragem de fechar a geladeira e se deparar com uma imagem que fosse longe de sua concepção.Foi quando Agenor abriu o freezer, o quebra cabeça se tornou ainda mais confuso, Agenor se tornara só um nariz, e Elis pensou que, definitivamente,não era capaz de amar um nariz, ainda mais um nariz que era meio torto, protuberante como aquele. Elis decidira fechar a porta, finalmente havia enjoado da brincadeira, suspirou em alivio quando viu o Agenor por inteiro, e a cada passo de Agenor. Elis colocava a mão a baixo de seus proprios olhos cumprindo o papel da geladeira, mas quando retirou a mão o que viu foi um absurdo, Elis havia cortado Agenor em fatias, e como disse o poetam, ninguem consegue abraçar um pedaço.
sábado, 24 de setembro de 2011
Despotismo ébrio
Ele vendo o jogo de futebol, ela lavando o jogo de jantar
Ele pede, ela vai
- Amor, me traz uma cerveja?
- Claro, paixão
Passa-se alguns segundos
- Amor me traz outra?
- É pra já
Mais alguns segundos
-Amor, tem como você trazer outra?
- Já to indo. Diz sem muita paciência
Ela entrega nas mãos cegas de seu marido, e retorna a cozinha, mal dá tempo dela chegar a pia, e já o escuta
- Mais uma amor
- Ok
Ela limpa a mão no pano de prato, retira o avental, e cruza a sala sem dizer nada, ele imaginando que a cerveja acabou e que ela vai buscar mais, sorri satisfeita.
Ela volta aparantemente sem cerveja alguma, somente com um objeto meio retangular, que ele nem presta muita atenção.
Ela vai até a cozinha desembrulha o tal objeto, e o estaciona do lado do sofá
- Pronto, isso é um frigobar, e está cheio de bebida
Ele sem desviar o olhar do jogo, diz :
- Mas para que eu quero um frigobar do meu lado, se a graça é pedir pra você trazer a cerveja?