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sábado, 17 de março de 2012

Quando eu soltava a voz

Eu tinha certeza que a amava, e tamanha certeza, era provida da cantoria no chuveiro. Eu cantava sem vergonha alguma, algum samba sem vergonha. Ah, e como era bom cantar sabendo que você no quarto ao lado cantando em pensamento. Era bom soltar a voz depois de ter me desprendido de tantos medos e receios. Depois de só ter sussurrado na cama. Era hora de cantar a alegria pelos sussurros dados. E eu cantava com o peito que você tinha aberto com teu carinho. E era tão fácil cantar, nosso sexo fazia bem para minha voz. Mesmo que depois um pouco rouco, o gosto do teu corpo na minha garganta, me fazia cantar alto, limpo. Cantar no chuveiro era como enxugar a alma que tinha sido lavada em seus beijos. Depois de murmúrios, rangidos, sussurros, cantar no chuveiro era o meu orgasmo final.

sexta-feira, 16 de março de 2012

Insuficiente

- Eu te amo, mas não podemos ficar juntos
- E por que não?
- Por insuficiência
-Está dizendo que sou insuficiente para você?
- Não, é por insuficiência cardíaca, meu coração não aguentaria tanta emoção

Sua culpa

Eu não te culpo
Eu culpo a sua falta de compaixão
Se olhasse em meu rosto, eu aceitaria meus olhos
Se me abracasse, eu assumiria meu corpo
Mas você me ignora em silêncio
E a insegurança já é uma grande responsabilidade

Eu não culpo o seu devaneio
Eu culpo a sua falta de tato
Se ouvisse minhas palavras, eu engoliria meu lirismo
Mas você confia demais no tempo
E eu não confio em mais nada.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Quando meu corpo for céu

E quando meu corpo for céu
Farei da tua costela, constelação.
E se a luz se traduzir em vivência
há de clarear em toda invenção, um pouco de crença
Se assemelha em teu vermelho, a minha eternidade
E miro em tua estrela, toda a minha criação.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Absurdo Florido

Sinto falta do teu mosaico em meus ouvidos, como a difusão de notas que embaralham minha visão, suas múltiplas personalidades decorando com pedras meu viveiro. Tua garganta gritando mármore me faz tenaz, mas é em tua pele que me confundo em ouro. Coloca meu coração em cubo, para que eu não respire em liberdade, sem ponto de fuga, só melodia, mancha e fragmentos. E nesse labirinto decorativo, eu me perco na arte de nunca te encontrar. Meus olhos que percorrem padrões de uma cúpula sem culpa, não olham os seus. Minhas mãos que procuram uma só textura, não encontram em teu espaço infinito uma única explicação. Condessa cada limite – pensamento e ignora o mundo. Eu peço o teu absurdo. Mas você insiste em florear minha nuca.

domingo, 4 de março de 2012

Desejo

O desejo não é impreciso, e se pressinto o meu vazio, o delírio te multiplica.
O desejo não é isto,não é definido pela cor que te enobrece, e se pressinto o escuro, meu medo também te ofusca.
O desejo não é disforme, não é amorfo, e se em ti pressinto o deserto, minha vida insatisfeita pinta flor.
O desejo não é desejo, e se em ti pressinto o abstrato, há de ter em um porta retrato um amor.
Mas se meu desejo por ti, precedente de tua carne, for assim um princípio, há de nos amarmos em um cerne sem fim.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Arabesco

Confisca minha palavra. Do livro que queima, a faísca é silêncio. Arisco o significado, da boca que cospe cinzas. Ofusca tua capa, para eu não te julgar em poesia. O ar fisga teu infinito, e o espaço configura sua geometria em meu corpo. E a figa para não se perder no mundo, é a raiz que cresce entre nós. Desse peito arabesco, floresce arroubos em todo bosque. Há mais flores do que letras, e no pronome decorativo de todo amor, reascende o teu nome.